Gastronomia na Praça 2014

Nos dias 14 e 15 de junho, ocorreu a segunda edição do Gastronomia na Praça, dessa vez realizada na Praça do Papa. Não conseguimos ir à primeira edição, mas estávamos lá firmes e fortes (e famintos) nos dois dias desse ano.

O Gastronomia é um evento de street food, focado em oferecer alta gastronomia a preços mais acessíveis do que aqueles praticados normalmente nos restaurantes. O evento contou com a participação de diversos restaurantes estrelados da capital, além de barracas de artesanato e alguns produtos tipicamente mineiros (café, doces caseiros, cachaça e queijos), e shows com Zeca Baleiro, Thiago Abravanel e outros.

Antes de mais nada, já deixamos claro: adoramos o evento! Agora, vamos à análise.

Foi instalado um posto de troca de ingressos no Mercado Central. O ingresso era trocado por 2kg de alimento não perecível e cada pessoa poderia pegar até dois ingressos para cada dia. Se alguém quisesse mais, poderia pegar, mas teria que enfrentar a fila de novo. Fizemos nossa troca no primeiro dia, pela manhã. A fila, apesar de grande, estava organizada e o tempo de espera foi de apenas 20min. Além disso, os restaurantes receberam alguns ingressos para distribuírem para seus clientes.

Muitas pessoas reclamaram que só havia um posto de troca e que não havia limite de ingressos por dia. Poderia haver mais postos de troca sim, mas não achamos que deva haver limite diário, pois prejudicaria quem se dispôs a deixar de fazer alguma outra coisa para ir até o local trocar o ingresso. A procura foi imensa e muitas pessoas que queriam ir não conseguiram ingresso, mas, infelizmente, essa é uma situação normal em qualquer tipo de evento… E mesmo tendo havido apenas um posto de troca, é bom ressaltar sua localização central, facilitando o acesso para a grande maioria.

Outro problema que vimos muita reclamação foi a venda de ingressos por cambistas. Infelizmente, é outra questão que afeta qualquer tipo de evento e sobre a qual nada se pode fazer: a única solução seria ingressos nomeados, mas isso também já seria exagero… Ah! Havia também um lounge e um camarote, vendidos a preços surreais…

Já no evento, ficamos impressionados com a estrutura montada, a organização e a qualidade. Fomos no sábado sem saber se voltaríamos no domingo, tudo dependeria da experiência que teríamos. E saímos com a certeza de que tínhamos que voltar no domingo, e assim fizemos. O Gastronomia lotou nos dois dias, mas, ainda assim, não nos sentimos em uma “muvuca”.

A entrada era feita pela área mais alta da praça. Ali, no primeiro pavimento, estavam o lounge, algumas barracas de artesanato e comidinhas, banheiros, mesas e bancos, postos de bebida e de compra de fichas (aparentemente, nenhum aceitando cartão). Achamos que tinha poucas mesas e poucos guarda-sol.

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No piso intermediário, estavam as barracas dos restaurantes e mais uma de artesanato, o palco principal, postos de bebida e de fichas (apenas alguns poucos aceitando cartão), algumas mesas e o camarote.

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No gramado atrás das barracas, ficava a tenda de Ensalada, uma oficina de “mini chef” para crianças e mais banheiros. Aqui, uma observação: a organização havia divulgado que haveria uma área picnic, com toalhas distribuídas gratuitamente. No sábado, vimos pouquíssimas toalhas sendo utilizadas. No domingo, a princípio, as toalhas estavam sendo ofertadas a quem quisesse – enquanto algumas pessoas pegaram várias de uma vez, outras ficaram sem (presente!). Quando fomos pegar, disseram que as toalhas tinham acabado. Só que, em menos de 10 min, vimos pessoas pegando toalhas, que passaram a ser vinculadas à compra de ensaladas! Um absurdo…

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Por ali embaixo, também estava o winebar do Grupo Meet, com uma seleção de vinhos a preços atrativos, muitas garrafas entre 25 e 45 reais. No sábado, não animamos enfrentar a fila gigantesca, e ficamos só na cerveja. No domingo, chegamos cedo e não tinha fila. Compramos, então, uma garrafa do francês Château Merlet Bordeaux (R$45,00).

Sobre as comidas, uma observação que fizemos lá: além das tais ensaladas, não havia nenhum prato para vegetarianos. Não é o nosso caso, mas é algo que deve ser considerado, para atender todos os tipos de amantes da gastronomia.

Mais uma coisa legal é que alguns restaurantes serviram opções próprias de seus cardápios regulares! Então, quem gostou muito de algum prato poderá repeti-lo em uma visita à casa. E esse é o espírito de eventos que oferecem boa gastronomia a preços mais acessíveis: introduzir o cliente no estilo do restaurante, fazendo com que ele goste e retorne em outro momento.

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Glouton: Papada de porco ensopada e grelhada com purê de batata doce. (R$20,00)

O chef Leonardo Paixão – recentemente eleito chef do ano pela Veja BH –  esteve durante todo o evento na barraca, fiscalizando os pratos. O resultado não poderia ser outro: o melhor prato do evento – não apenas pelo sabor excepcional, mas também pela preocupação com a apresentação. A papada de porco desmanchava com um leve toque do garfo, uma maciez absurda. O purê de batata doce complementava a papada de forma inusitada, conferindo um toque adocicado ao prato.

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Trindade: X-Zé: Hambúrguer com queijo canastra e catchup de goiaba. (R$20,00)

O grande destaque desse hambúrguer era a carne, picada na faca ao invés de moída. Bem temperada, saborosa, suculenta e rosada, um espetáculo. A fatia de queijo canastra era bem grossa e veio bem derretida. O catchup de goiaba foi servido em um daqueles tubos de pomada, mas acabou sendo uma grande decepção, pois não vinha quase nada. Melhor que tivesse sido servido em potes maiores (como fez o Xapuri, disponibilizando variados tipos de pimenta no balcão) ou até mesmo em sachês, mas de uma forma que não limitasse tanto o consumo – e que provavelmente saiu mais cara para o restaurante… Embora o hambúrguer estivesse delicioso, achamos o preço caro pelo prato apresentado, pois seu tamanho era pequeno e foram utilizados poucos ingredientes no preparo.

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Villa Roberti: Ravioli ripieni di gallina faraona: ravioli recheado com galinha d’angola ao molho do próprio assado com champignon fresco e ora-pro-nóbis. (R$20,00)

Prato delicioso, com sabor de comida de vó. O ravioli de galinha d’angola é uma das receitas mais tradicionais do Villa Roberti, que, como pudemos comprovar, faz jus ao seu sucesso. Mas achamos que veio pouco cogumelo.

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Xapuri: Vira lata metido a besta: pão com linguiça do Xapuri e cebola caramelizada na rapadura, rúcula e mostarda. (R$20,00)

A disputadíssima barraca do Xapuri tinha as maiores filas do evento, nos dois dias. E não é por menos: o sanduíche era grande e delicioso, com um bom custo-benefício. E o cheiro da linguiça que saía da barraca e tomava conta do gramado era de partir o coração de qualquer gordinho, rs. Pedimos nosso sanduíche partido ao meio, para dividirmos (aliás, dividimos todos os pratos, para podermos comer mais!), por isso a foto não o favoreceu muito. O pão utilizado era Cum Panio e tinha casquinha crocante por fora e massa macia. A linguiça levemente picante casava perfeitamente com a cebola caramelizada na rapadura. Já a rúcula estava ali só pra fazer aquela figuração e fingir que é um sanduíche saudável.

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Ah! Bon: Brownie com sorvete de baunilha e calda quente de chocolate. (R$15,00)

A grande sacada do Ah! Bon foi oferecer sobremesas, enquanto nenhuma outra barraca mais o fez. O resultado era que a barraca estava sempre cheia, pois todo mundo ia comer um doce depois dos pratos. Eram três opções: brigadeiros (dois por R$5,00), tartellete de chocolate branco (R$10,00) e o brownie. Acabamos ficando com o brownie nos dois dias… a gente jura que ia pedir os outros no domingo, mas não resistimos, porque o brownie, além de delicioso, era enorme!

No domingo, como já dissemos, não conseguimos nem mesa, nem toalha. Sentamos na grama mesmo, debaixo de uma árvore, com nossa garrafa de vinho, e por ali ficamos num delicioso picnic, curtindo o tempo agradável, as comidinhas, a música, a companhia… teve bão!

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Salumeria Chiari: 1) Seleção de Salumeria Defumada: lombo, picanha, pastrami, copa – acompanha pão ciabatta e azeite de oliva. 2) Seleção de Salsichas Artesanais: tradicional, com alho e defumada, com mostardas clara e escura – acompanha pão de cevada e centeio. (R$20,00)

Começamos os trabalhos de domingo com um couvert, rs. Pedimos um mix das duas opções disponíveis, e parece que só não recebemos da picanha defumada. Estava tudo muito bom, petisco com ótimo custo-benefício, principalmente pra quem foi em grupos maiores.

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Borracharia Gastropub: Tilápia crocante com aioli: filé de tilápia com molho à base de mostarda dijon. (R$20,00)

Mais uma ótima opção, que tinha filas enormes o tempo todo. Nada de óleo escorrendo: a tilápia estava bem crocante e bem temperada. O molho à base de mostarda dijon adicionava ainda mais sabor e mostrava-se como o complemento ideal para o peixe.

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Cantina Piacenza: Ravioli de queijo minas com azeite de couve, salsa brava, crocante de bacon e redução de aceto balsâmico. (R$20,00)

Olha só: dá pra contar míseros cinco raviolis no prato. Decepcionante não só pela quantidade, mas pelo sabor também – ou a falta dele -, não muito diferente daqueles que você compra no supermercado…

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Vecchio Sogno: Gnocchi di taioba com picola polpetta di carni alla salsa veneziana: gnocchi de taioba com polpetta ao molho de cebola, abobrinha e azeitona seca. (R$20,00)

Por fim, o pior prato que comemos no evento. Ah, que arrependimento de termos optado por ele… Sem gosto, sem graça, frio. O gnocchi não desmanchava na boca e as polpettas estavam meio “borrachentas”.

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Não podemos deixar de falar de uma ação bacana promovida pelo Senac durante o Gastronomia na Praça: a carreta-escola de Turismo e Hotelaria estava oferecendo gratuitamente aulas de Slow Food e de Botecaria com o chef Luciano Avellar. Conseguimos nos inscrever para a aula de Botecaria no final da tarde de domingo.

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Infelizmente, a própria logística da carreta-escola impede que os alunos vejam de perto o preparo da comida. Ainda assim, foi uma experiência interessantes para nós dois, que nunca tínhamos assistido uma aula de culinária.

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O chef Luciano Avellar ensinou uma receita típica de Minas Gerais: pastel de angu com recheio de carne e umbigo de banana.

Saímos da aula e passamos no Ah! Bon para comermos mais um brownie antes de irmos embora.

Tudo foi tão bom, que já estamos esperando o próximo Gastronomia na Praça. :)

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BH: Trindade

O Trindade era um desejo antigo nosso… Aproveitamos a 8ª edição do Restaurant Week em BH para finalmente conhecermos a casa. O restaurante é comandado por Fred Trindade e Felipe Rameh, que, durante toda a noite, circularam pelo salão e cumprimentaram alguns clientes. A propósito, Felipe Rameh foi eleito pela Veja BH 2013 como o Chef do Ano.

O Trindade mistura – com maestria, diga-se de passagem – elementos clássicos e modernos, tanto na cozinha, quanto na decoração. A cozinha contemporânea e autoral traz sofisticação a ingredientes tradicionais da culinária mineira e inova em suas misturas e aplicações.

O serviço é impecável, como se espera de um restaurante do nível do Trindade.

Durante o Restaurant Week, o cardápio de jantar custa R$49,90 + R$1 (Jornada Solidária). Diferente dos outros restaurantes participantes, que apresentam apenas duas opções em cada tempo do menu, o Trindade tinha cinco opções de entrada (além das que pedimos, tinha também Dadinhos de tapioca com melado e alecrim, Espetinho caprese com queijo do Serro e Canapé de ovinho trufado com queijo Zé Mario e flor de sal) e de prato principal (além dos nossos, Creme de baroa com cogumelos, castanhas e brotos, Picadinho de filé angus glaceado com abobrinha caipira, banana, farofa croc e ovo frito e Peixe do dia com palmito assado, legumes verdes e purê de banana). Ponto para o Trindade, que preza pela variedade e por tentar agradar ao máximo o cliente. Além disso, as opções apresentadas integram o cardápio regular da casa, o que torna o RW uma ótima oportunidade para conhecê-la.

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O amplo salão apresenta belos painéis de Rogério Fernandes, que, aliados aos suntuosos lustres, grandes mesas de madeira e antigos utensílios de cozinha, compõem um ambiente arrojado e aconchegante. Nas mesas, o vasinho de flor e a panelinha com pimenta adicionam charme e reforçam o cuidado com a decoração em todos os detalhes.

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No entanto, apesar do alto nível do restaurante, pra variar, a cerveja era Stella. Um pouco decepcionante não encontrar nenhuma cerveja especial…

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Entrada: Tulipinha de frango orgânico Korin com mel e mostarda.

A tulipinha era um show de execução para uma ideia bem simples. A pela estava crocante na medida certa, e a carne bastante macia. O gosto da mostarda não obscurecia o sabor do frango, servindo – como sempre deve ser – para realçá-lo. O ramo de alecrim coroava a experiência, conferindo um gosto marcante para a entrada.

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Entrada: Batatinha brava com parma Sr. Chiari.

As batatinhas estavam bem cozidas, mas muito apimentadas. Uma entrada correta, mas não excepcional. Queria ter pedido os dadinhos de tapioca, mas estavam em falta na noite que fomos…

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Prato principal: Jarret de porco com angu de milho verde e gremolata.

A panturrilha de porco estava, simplesmente, deliciosa, desfiando, delicadamente, a cada garfada. Apesar de servida em um evento movimentado, como o Restaurant Week, o jarret foi preparado da maneira correta: assado lentamente por horas. Diferentemente da famosa panturrilha que integra o cardápio da Salumeria Central, esta veio à mesa bem quente, o que – ao menos, em minha humilde concepção – torna o prato ainda mais agradável.

O angu de milho também estava bem gostoso, casando, perfeitamente, com o molho que acompanhava o jarret. Textura e sabor bastante suaves. O prato só não foi perfeito pela escassez de gremolata. Para vocês terem uma ideia, a quantidade foi tão pouca que por várias vezes interpelei o garçom para que ele trouxesse o pote de tempero, já que, na minha ingênua visão, haviam se esquecido de servi-lo. Quem tiver uma lupa em casa pode tentar enxergar a gremolata no meu prato: são aqueles dois ramos de salsa no lado direito da panturrilha.

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Prato principal: Bobó de camarão com arroz de coco e chips de raízes brasileiras.

O bobó de camarão estava delicioso, embora também muito apimentado. Aqui ficou a única dúvida da noite: pedi que a pimenta fosse suave; mas, para o meu gosto, estava muito apimentado. E aí eu não sei se meu pedido não foi atendido ou se o prato normalmente tem níveis extraordinários de pimenta… Os chips de raízes não estavam muito crocantes, talvez por terem vindo em contato com o molho do bobó, e poderiam ter vindo em maior quantidade. Os camarões do bobó eram grandes e vieram em quantidade razoável (nem muito, nem pouco, mas eu aceitaria mais de bom grado, rs). De acompanhamento, o arroz com amêndoas, lascas de coco e raminhos de funcho (erva-doce) suavizava a pimenta do bobó. As amêndoas adicionaram a crocância desejada, que faltava aos chips. A mistura de sabores do arroz era agradável e casava bem com o tempero forte do bobó. Um prato excelente, até mesmo para quem não gosta de pimenta…

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Sobremesa: Crème brûlée de doce de leite Viçosa.

O crème brûlée preparado com doce de leite Viçosa é mais uma tentativa muito bem sucedida de reinventar ingredientes regionais. A sobremesa é doce sem ser enjoativa, graças à adição de flor de sal, que quebra o açúcar do doce de leite, ao mesmo tempo que realça seu sabor. Veio quentinho (amo doce quente!), com a casquinha bem crocante. A porção é farta e sugerimos, a quem for fora do RW, que peça para dividir. Doce sensacional, do tipo que dá vontade de comer sempre.

Fomos com expectativas bem altas, e o Trindade superou todas. Comida, atendimento e ambiente excelentes. Cozinha autoral e excepcional. É, sem dúvida, um restaurante diferenciado, que faz jus à fama que tem.

Trindade: R. Alvarenga Peixoto, 388, Lourdes – (31) 2512.4479.